ANDI RICARDO: MORE THAN VIRAL, A CONSTRUCTION OF DISCOURSE AND IDENTITY
- Editorial

- há 23 horas
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Com uma presença magnética e um discurso que equilibra crítica, inteligência e autenticidade, Andi Ricardo — conhecido como Nego Doce — vem consolidando seu espaço como um dos nomes mais relevantes da nova geração de criadores brasileiros. Comunicador, estudante de teatro e fenômeno digital, ele constrói narrativas que vão além do entretenimento, provocando reflexões sobre autoestima, representatividade e cultura popular com um humor ácido e extremamente contemporâneo.
Reconhecido pelo impacto de sua voz — vencedor do Prêmio Potências 2024 e indicado ao TikTok Awards 2025 — Andi traduz, em cada conteúdo, uma conexão genuína com o público e um entendimento refinado de seu tempo.
Nesta entrevista à YOUR, ele fala sobre trajetória, identidade e o poder de comunicar com verdade em uma era que exige mais do que alcance: exige relevância.

Você transita entre humor ácido e temas estruturais como autoestima e representatividade. Em que momento percebeu que seu conteúdo poderia ir além do entretenimento e se tornar ferramenta de impacto social?
Eu cresci em um ambiente muito politizado, principalmente por causa da minha mãe, que é ativista, militante, professora e escritora. Dentro de casa eu sempre fui o cara engraçado, que gostava de entreter todo mundo, mas ao mesmo tempo minha mãe sempre me incentivou muito a estudar e a refletir sobre as coisas ao nosso redor.
Quando comecei na internet, eu não imaginava também que eu viria a crescer tão rápido, ter notoriedade, e que meu conteúdo iria longe assim, mas a partir do momento que as coisas começaram a acontecer, foi quando eu pensei, mano, existe essa oportunidade, né, de juntar o útil ao agradável, de levar humor para as pessoas compartilhando reflexões que eu sempre tive dentro de casa.
Sendo um homem preto, eu enfrento muitas das adversidades que existem na nossa sociedade, então acho importante, em alguns momentos, usar o espaço que tenho para trazer essas conversas. Não foi exatamente uma decisão planejada. Eu sinto que sempre me posicionei à minha maneira, muitas vezes de forma mais leve, até porque entendo que as pessoas também estão cansadas de falar sobre certos temas o tempo todo, mesmo vivendo essas realidades.
É legal, ser um cara engraçado, levar humor pras pessoas, mas é interessante também, em certos momentos, trazer essas reflexões, acho que isso é ser um formador de opinião.
Um momento que também me marcou foi quando fiz um curso de audiovisual,e um professor disse algo que ficou muito comigo: que o audiovisual é um dos poucos caminhos que permitem que pessoas pretas alcancem lugares que muitas vezes parecem distantes, seja na televisão, no cinema ou em outros espaços. Aquilo me fez pensar que, através da comunicação, eu poderia alcançar muita gente e usar essa voz de uma forma significativa.

O “Nego Doce” é uma persona ou uma extensão amplificada de quem é Andi Ricardo fora das câmeras? Onde termina o personagem e começa o comunicador?
No começo eu não gostava muito quando as pessoas me chamavam de “Nego Doce”, então quando esse apelido começou a viralizar, eu estranhava bastante. Mas teve um momento em que eu pensei: ah, mano, vou assumir essa persona, mas do meu jeito.
Eu sou uma pessoa que se importa com a imagem, com a aparência, né, mas eu também sou um formador de opinião. Hoje eu vejo o Nego Doce como uma extensão do Andi, porque ele não se separa de quem eu sou, mas, gosto de mostrar que vou muito além disso.
Sou um comunicador, um cara que gosta de refletir e estudar. Então o Nego Doce foi o que me trouxe até aqui, mas esse é só um dos lados do Andi.
Seu humor carrega inteligência e crítica cultural. Como você equilibra leveza e responsabilidade ao tratar de temas sensíveis para a nova geração?
Eu tento trazer equilíbrio através do entretenimento. Muitas vezes as críticas estão ali de forma mais sutil dentro do humor. A pessoa assiste, se diverte, e no final, acaba refletindo, sabe?
Também existe um processo criativo antes de gravar. Converso muito em casa e observo bastante o que acontece no meu dia a dia para antes de postar pensar “como que eu posso traduzir isso pra internet e gerar uma discussão, uma reflexão”, sabe?
Ser vencedor do Prêmio Potências 2024 e indicado ao TikTok Awards 2025 muda sua percepção sobre influência e responsabilidade pública? O que esses reconhecimentos representaram para você estrategicamente
O Prêmio Potências foi um grande marco na minha carreira, principalmente porque aconteceu muito rápido. Eu tinha cerca de um ano e meio de internet quando ganhei, então foi um momento em que percebi que as coisas tinham ficado sérias, que não era só uma brincadeira.
Eu carrego essa responsabilidade, de representar milhares de vozes que nem sempre são ouvidas. E acredito que junto com a responsabilidade, esses prêmios também acabam fortalecendo minha imagem e credibilizando meu trabalho, dando mais importância, pro que eu falo. Acho que tipo... se dá esse desejo de escuta mesmo.
Com a indicação ao Tiktok Awards também senti isso, junto com a pressão e a responsabilidade, vem também um reconhecimento importante para a minha trajetória.

Você estuda teatro. De que forma a formação artística impacta sua construção de roteiro, timing cômico e presença digital? Existe método por trás da espontaneidade?
Antes da internet, eu estudei audiovisual durante a pandemia, em um instituto. Lá eu aprendi todas as etapas da criação de conteúdo, indo da pré-produção até a pós-produção, então eu sei bastante sobre roteiro, captação, direção, edição e tenho até DRT. Então, a minha trajetória na internet, se for parar pra pensar, começou há mais tempo, né? Essa formação acabou influenciando muito a forma como eu penso e construo meus vídeos hoje.
Mesmo quando o conteúdo parece espontâneo, existe um método por trás. Antes de gravar eu penso no roteiro, converso com a equipe e planejo como será a captação e a edição, porque cada escolha nessas etapas influenciam na forma como o público vai sentir aquele vídeo.
Acho que isso também cria uma espécie de “barreira de entrada”. Hoje muita gente copia formatos na internet, mas quando existe um processo criativo e técnico por trás, o conteúdo ganha mais identidade e fica mais difícil de replicar. Então existem, com certeza, vários métodos.
A nova geração busca identificação real. O que, na sua visão, ainda falta na comunicação das marcas quando tentam dialogar com cultura e representatividade?
Acho que o que ainda falta para muitas marcas é letramento, principalmente letramento racial. Muitas vezes elas procuram creators para falar sobre cultura e representatividade, mas ainda querem controlar totalmente a narrativa, partindo de uma perspectiva que nem sempre é a de quem vive aquela realidade.
Quando uma marca contrata um criador, ela também precisa confiar na visão e na experiência daquela pessoa. No meu caso, eu cresci na internet justamente por causa da minha perspectiva de mundo, então faz mais sentido quando o conteúdo respeita essa autenticidade.
Além disso, essa consciência precisa ir além das campanhas. Tem que estar na forma de se relacionar com a gente no dia a dia de trabalho e também na consistência, precisam trabalhar com os influencers pretos de janeiro a janeiro, não só em novembro.

Se você tivesse que definir o legado que deseja construir nos próximos cinco anos, ele estaria mais ligado ao humor, à formação artística ou à transformação social? Ou tudo isso é parte do mesmo projeto?
Eu acho que tudo isso faz parte do mesmo projeto. Quero continuar trabalhando com humor, mas também fortalecer cada vez mais minha formação artística e minha trajetória na comunicação. Tenho vontade de voltar para o teatro, explorar novos formatos e ocupar outros espaços, como a televisão, por exemplo.
Quero ter essa visibilidade cada vez mais, e acho que a consequência disso acaba sendo a transformação social. Acredito que estar nesses espaços é uma maneira de luta também. Enfim, acho que basicamente é isso. Tudo faz parte do mesmo projeto.



